A CONCRETIZAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DE RUGGIE NO BRASIL: O PAPEL DA LEI DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIAS COMO INSTRUMENTO DE PROTEÇÃO HUMANA E ECONÔMICA

Autores

  • Caio Goto Ministério Público do Estado do Paraná
  • Alexandre Nasser de Melo Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.18893920

Palavras-chave:

Direitos Humanos, Princípios de Ruggie, proteção econômica, recuperação judicial

Resumo

A presente análise se propõe em estudar a concretização dos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos no sistema normativo brasileiro, com enfoque na interpretação da Lei de Recuperação Judicial e Falências (LRJF) como instrumento de proteção econômica e humana. Os chamados Princípios de Ruggie, adotados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e edificados a partir dos esforços de John Gerard Ruggie, baseiam-se na tríade “proteger, respeitar e reparar”, como máximas de direcionamento da atividade empresarial em busca de garantir que empresas atuem de forma ética e sustentável, mesmo em cenários de crise financeira ou de reestruturação econômica. Destacam-se a importância da governança corporativa e da responsabilidade social como paradigmas presentes no modelo brasileiro de recuperação judicial, evidenciando sua função na mitigação de impactos sobre credores, trabalhadores e demais interessados. A LRJF é projetada como mecanismo que equilibra a preservação da atividade empresarial e a proteção de direitos fundamentais, prevenindo falências, incentivando a economia e promovendo práticas sustentáveis. Além disso, o papel do Estado na supervisão da recuperação empresarial e a exigência de due diligence pelos atores privados são destacados como fundamentais para a efetivação de práticas adequadas aos Princípios de Ruggie. Com o objetivo de ilustrar sua aplicação concreta, examinam-se o desenvolvimento e os resultados obtidos a partir da recuperação judicial da Samarco S.A., empresa envolvida no desastre ambiental de Mariana/MG (2015). A análise casuística esclarece como a LRJF pode conciliar reestruturação financeira e compromissos socioambientais, permitindo o adimplemento de credores concomitantemente à proteção de direitos.

Biografia do Autor

  • Caio Goto, Ministério Público do Estado do Paraná

    Especialista em Direito Penal e Processual Penal. Promotor de Justiça no Ministério Público do Estado do Paraná. Ex-Delegado de Polícia Civil em Mato Grosso do Sul.

  • Alexandre Nasser de Melo, Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR

    Mestre em Direito Empresarial. Advogado. Sócio da Nasser de Melo Advogados Associados e da Credibilità Administrações Judiciais. Coordenador e professor da Pós-graduação em Falência e Recuperação de Empresas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR. Membro do Grupo de Trabalho do Conselho Nacional do Ministério Público para elaboração de Manual de Boas Práticas em Falências e Recuperações Judiciais. Autor do livro “Comentários à Lei de Recuperação de Empresas e Falência”, publicado pela Editora Juruá, atualmente em sexta edição e de diversos artigos acadêmicos.

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2026-03-06

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Artigos

Como Citar

A CONCRETIZAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DE RUGGIE NO BRASIL: O PAPEL DA LEI DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIAS COMO INSTRUMENTO DE PROTEÇÃO HUMANA E ECONÔMICA. Revista do Ministério Público de Contas do Estado do Paraná, [S. l.], v. 13, n. 22, p. 36–54, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.18893920. Disponível em: https://revista.mpc.pr.gov.br/index.php/RMPCPR/article/view/210. Acesso em: 7 mar. 2026.